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O FANTASMA


            Era noite de minguante. A Lua, só um pedaço dela, ia alta no céu e não perdia a chance de se esconder atrás de algum floco de nuvem. Escondia, mas logo reaparecia, pois a nuvem corria rápido, enquanto a Lua, velha decrépita, mal se movia, Ficava então esperando, com a paciência dos astros, que outro floco incauto lhe passasse por baixo para nele se aboletar, ainda que só por dois instantes. Evitava assim se mostrar, só um pedaço, pois, como tudo que é celeste, tem ela alma de mulher, prefere se exibir quando está cheia e resplandece, ainda que depois carregue algum remorso por ter sido causa do apagar de algumas estrelas. O bem de alguns é o mal de outros. É da vida dos homens, e é também da vida dos astros.

            Sentado na sala de estar, um livro aberto nos joelhos, mal percebia eu o movimento celeste que se desenhava na janela, e nem mesmo as volutas impressas no papel, letras imóveis, aflitas por me dizer aquilo que eu não lia. Não lia e não via. Não via e não sentia. Bendito é o bálsamo da distração, o lenitivo do alheamento vagabundo, viagem aleatória para mundos de Alice, esquecimento momentâneo da agrura de viver.

            Perdido em terras ignotas, levei algum tempo para perceber a figura que se condensava à minha frente, não em mundos fictícios, mas na sala real de minha casa real de minha vida real.

            No entanto, não era uma figura real; tinha-o sido, mas não o era mais. Era meu pai, que morrera fazia trinta anos; contudo, se real não era, era verdadeiro. Assim como a Lua, que gosta de se mostrar em sua plenitude, apresentava-se ele de terno novo, gravata vistosa e cabelos penteados com esmero. Se, por um átimo, dúvida tive, desapareceu ela instantaneamente ao ver aquela abundante cabeleira, branca e resplandecente como a Lua cheia. Ninguém tinha, tivera ou terá cabelos iguais.

            — Pai? — tartamudeei com espanto.

            — Há quanto tempo, não? — iniciou ele; depois hesitou um segundo, balançou a cabeça, sorriu: — Parece que o tempo não tem sido bom consigo, meu filho: quanta barriga! E esse monte de ruga na cara? Está parecendo mais velho que eu!

            — E sou mais velho mesmo — respondi. Em três meses faço 79, e o senhor morreu com 77.

            — 77 mais 33.

            — Tempo de morto não vale.

            — Na vida e na morte tudo vale.

            — Virou filósofo?

            — Sempre fui.

            Não se escandalize, amável leitora, com a aparente rispidez do diálogo, eu e meu pai sempre fomos francos e sem meias palavras. A rudez habitualmente esteve conosco, mas não o desrespeito. Se assim fosse com todos, creio que seria melhor a humanidade.

            A figura estava inteira. Parecia que os muitos anos decorridos desde a morte não lhe haviam alterado os modos e nem mesmo a vaidade. Gostou sempre de se apresentar bem composto de veste, barba escanhoada e cabelos cuidados — ah, os cabelos! — sua marca registrada. Por isso acostumara-se a me repreender pelo uso da barba comprida.

            — Vejo que você ainda não tirou a barba! Pior agora, toda branca. Caso perdido. Deixe pra lá. Quero saber como anda a vida. Você era o barbeiro mais falante do salão, depois de mim, claro. Seu irmão era um barbeiro melhor, mas muito mudo. Você era diferente, puxava conversa com o freguês, dava palpite em tudo, enfim, compensava com histórias o que faltava na tesoura. E aí, o que deu tanta história?

            — Deu em nada, pai. História, para dar dinheiro, tem que ser bem contada, e acho que ainda não aprendi direito. E agora, com esta idade, não aprendo mais. Mesmo assim, o senhor sabe que sou teimoso, tenho escrito uns pequenos causos, mas guardo na gaveta.

            — Isso é coisa de veado! Ou você escreve e ganha dinheiro ou não escreve nada. Escrever para gaveta ler?

            — Pai, não fale veado! Se alguém escuta, o senhor pode ser preso. Homofobia virou crime.

            — Ha, ha! Vão prender defunto! Então não posso mais chamar aqueles seus amigos... daquilo? Como é que estão eles? Ainda vivos, ou já foram desta para a pior? Aquele pintadinho, como era mesmo o nome dele?

            — João.

            — Isso mesmo. E tinha o outro, sempre apressadinho, e o outro, que vivia filando cigarro...

            — Hermes, Oswaldo.

            — Isso, isso. Se ainda estão vivos, mande lembrança para eles.

            — Mando.

            — E meus netos, como estão, eram nove, não?

            — Eram. Agora são dez, o senhor não chegou a conhecer a Mariana, que tem 28 anos. Todos bem, crescidos, procriando. O senhor já tem doze bisnetos.

            — Doze! Barbaridade! Sua mãe não vai acreditar. Bem, ela nunca acredita mesmo...

            A conversa prosseguiu por outros caminhos, e de repente eu não prestava mais atenção: uma questão antiga despertou em algum nicho perdido de meus miolos, sacudiu algumas teias de aranha, e desceu pelo pescoço entupindo a garganta. Enquanto não a pusesse para fora ela não permitiria que mais nada por ali passasse. Aproveitei uma pausa.

            — Pai, preste atenção! O senhor está mesmo aqui, ou é alucinação minha? Existe de fato vida depois da morte ou o senhor é um defeito de minha cabeça cansada? Diga, pai! O senhor sabe que sempre fui um cético, que nunca acreditei em nada. Agora chegou a hora da verdade. Diga de uma vez.

            Esperei impaciente a resposta. Um silêncio pesado se fez de repente. Desviei por um momento os olhos. Em meu colo, saindo do livro aberto, centenas de formigas pretas começaram a emergir da folha branca e, estranhamente, permaneciam imóveis em seus lugares. Comportamento esquisito para uma formiga, mais ainda para todo um formigueiro. Foquei melhor o olhar e, para surpresa minha, as formigas foram virando letras e o conjunto delas, palavras.

            Levantei os olhos, e a cadeira à minha frente estava vazia.

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