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GÊMEOS


            Esta história não foi inspirada em Esaú e Jacó, nem em Caim e Abel, embora guarde semelhança com elas. É apenas um relato dos nossos tempos e, se com elas se parece, é porque a espécie humana sempre foi imperfeita, desde o princípio, defeito original da criação, sem que isso implique desmerecimento ao criador. Talvez tenha sido sua intenção desde sempre. Fôramos perfeitos não haveria histórias, nem a História.

            Eva era o nome da mãe dos gêmeos e, para dar um basta às semelhanças bíblicas, não era Adão o nome do marido, e sim um simples João, que, parelho com o pai de todos, só ostentava a rima forte.

            Vivia o casal em lugarejo esquecido do mundo, já tendo Eva parido duas filhas, uma ainda de peito e a outra com quase cinco anos. Foram gestações tranquilas que, no tempo certo, resultaram crianças saudáveis.

            Agora era diferente, ventre crescendo, o movimento interior desacostumado, forte, contínuo, a indicar que acabara o tempo de placidez. Só podia, então, vir menino. Marido e mulher a procurar um nome, ele queria Paulo, ela gostava de Saulo. Não sabiam os coitados que os dois nomes pertenciam ao mesmo santo.

            Esperavam um, chegaram dois. O primeiro foi Paulo, nasceu de manhãzinha, com quase quatro quilos, com a estrela d’alva ainda no horizonte, o segundo, meia hora depois, com dois quilinhos mal pesados; aquele, normal, este, com o cordão enrolado no pescoço; um, rosado, o outro, com cianose. O primeiro foi posto no berçário coletivo, o segundo, recolhido à incubadora neonatal; o grande, quase esquecido, o pequeno, cheio de cuidados, condições que perdurariam para todo o sempre, pois quiseram os céus que um fosse de natureza forte e o outro, frágil. Injustiça, dirão alguns, tanta diferença! É que não conhecem eles que o futuro a abrandará: o mais novo será inteligente.

            Paulo cresceu tomando conta do caçula, no começo apenas por imitação aos pais, que tinham toda atenção voltada ao pequerrucho, que crescia pouco e adoentava muito. Desde sempre vendo isso, o menino, que tinha a alma pura, entendeu que o mundo era assim mesmo, que as pessoas e ele próprio haviam nascido para cuidar do irmão, juízo este que denota a fragilidade de seu intelecto. Saulo, por outro lado, objeto da preocupação e do carinho de todos, imaginava que viera ao mundo para ser cuidado e amado, e que as pessoas só existiam para satisfazer seus desejos, presunção que demonstra a finura e superioridade de seu raciocínio.

            Nascidos em família humilde, os gêmeos não tiveram vida fácil. Afora o peito da mãe, que era gratuito, todo o resto tinha seu preço, que quase sempre a família não conseguia pagar. O bife de fígado, por exemplo, receitado ao menino anêmico, por dificuldades orçamentárias só a ele era reservado. Se os infantes tivessem o mesmo desgosto de Inácio, o moço de fígado indiscreto de Lobato, não causaria impacto a restrição assinalada, mas se estendermos a mesma exclusividade para o consumo de guloseimas, aí é possível que o leitor comece a se compadecer do irmão mais velho. Quando o dinheiro não dava para todos, pelo menos o caçula era beneficiado, e isto acabou se tornando um hábito; nada mais natural que assim fosse. Paulo sentia as faltas, é verdade, mas compreendia que assim é que devia ser, e crescia sem inveja; cada nova privação servia de adubagem para o crescimento da semente do amor. Ironicamente quem desenvolvia inveja era o outro, que tinha todos os bens que a família podia comprar, mas não tinha a boniteza do irmão, sempre maior e mais forte.

            Entrados na escola, o franzino ia bem nas ciências e o irmão, nos esportes; traziam para casa as melhores notas, um, e medalhas, o outro. O das notas, secretamente, enquanto todos dormiam, ia admirar o brilho das medalhas do irmão.

            Durante o primeiro grau, quando a socialização se dá entre crianças do mesmo sexo, o gêmeo grande, de temperamento leve, fazia amigos com facilidade; o pequeno, não. Sua índole sorumbática afastava os coleguinhas e estaria ele fadado ao isolamento não fosse a preocupação do irmão em chamá-lo a participar dos grupos, onde ele era apenas tolerado.

            As coisas não mudaram muito quando atingiram o segundo grau; houve apenas uma substituição de sexos: o interesse se transferiu para as meninas. Estranhamente, aqueles seres sem graça, cheios de dengos e não-me-toques, passaram de repente a irradiar brilhos insuspeitos; as sombras apagadas de antes eram agora luzes incandescentes e a vida parecia assumir os contornos de um palco iluminado, onde se ansiava levar avante uma dança de pas-de-deux. A repulsão antiga dera vez à atração.

            O gêmeo graúdo, tomando agora proporções apolíneas, não demorou a ter sucesso entre as raparigas. O semblante limpo e o sorriso genuíno conquistavam os corações das ninfetas. O contrário sucedia ao irmão: de corpo franzino, olhar oblíquo e dissimulado, todo ele parecia emanar de profundezas cavernosas e provocava arrepios feminis. É justo destacar que o irmão também provocava arrepios nas meninas, mas seriam eles arrepios diferentes. Estamos diante da complexidade dos seres humanos: o mesmo sintoma — arrepios — denota desejos de atrair, num dos casos e compulsão de repelir, no outro. Mistérios que a ciência um dia há de explicar.

            O que não é mistério, pois que já o estamos adivinhando, é o ressentimento que crescia sem parar no coração de Saulo. Aquilo que dera certo no estágio anterior, quando os grupos do irmão o acolhiam por deferência, agora fracassava: as garotas a ele recomendadas refutavam sua presença depois do primeiro encontro. Qual mariposas recém-saídas do casulo, recusavam elas cair no desvão tenebroso da personalidade do moço casmurro; preferiam sempre os voos iluminados de céu de brigadeiro proporcionados pelo irmão. E assim a inveja, essa flor de pântano, encontrava solo fértil na alma escura do rapaz, onde vicejava com tal força que chegava a provocar-lhe engasgos físicos, somatizando seu defeito moral.

            Paulo percebia a tristeza do outro, e ficava triste também, mas o que podia fazer? Fora fácil quando crianças, bastava ele aceitar de boa vontade a privação de guloseimas para que o irmão delas usufruísse. Agora as moças — guloseimas da idade — fugiam do mano no primeiro encontro e ele não tinha como influenciar-lhes a vontade. Procurava, então, amenizar a decepção do infeliz se achegando a ele com carinho — mas era repelido.

            Com o passar dos anos a inteligência, que nada deve ao estofo moral e, por isso mesmo, dele guarda distância, começou a fazer diferença na vida dos irmãos. Saulo teve uma carreira profissional de sucesso, ganhou dinheiro, casou com mulher rica, e a cada nova conquista fazia questão de se distanciar de Paulo. O afastamento foi se ampliando rápido e chegou ao ponto em que os irmãos só vinham a saber um do outro por terceiros. Saulo, quando informado de algum insucesso do outro, fingia pena, mas de noite, escondido no escuro do leito, sorria feliz. A má sorte do irmão era um lenitivo que ele aplicava carinhosamente na casca dura de sua inveja.

            O pobre Paulo, belo, porém medíocre, teve suas dificuldades e o máximo que conseguiu foi uma situação modesta. Tinha, contudo, muito orgulho do sucesso do irmão e se deliciava com cada notícia boa que recebia. Contentava-se de amá-lo à distância, como um planeta ama seu sol.

            Ficou, pois, abalado quando soube do acidente: morrera a cunhada rica e o irmão ficara paraplégico. Correu para ajudar no que pudesse. A fortuna era da mulher, a casa era da mulher, o casal não tivera filhos e o regime era de separação de bens. A família da defunta, que nunca concordara com seu amor bandido, e menos ainda com o casamento, não fez por menos: o viúvo não ficou com nada, afora uma pequena poupança individual.

            Depois do hospital Paulo trouxe para casa o irmão acidentado para morar consigo. Veio ele revoltado, rabugento, expelindo amargura por todos os poros e nem passou pela cabeça externar agradecimento, ao contrário, a humilhação que lhe fora imposta era mais um fermento a fazer crescer o rancor que sempre nutrira. Astuto, porém, como já o dissemos muitas vezes, passado o momento inicial de grande revolta, recalcou a mágoa como quem engole um caroço de jaca e — dissimulado que era — passou a demonstrar alguma afeição a seu benfeitor.

            O mano velho — inocente! — ficou feliz com a mudança de temperamento do outro e, com amor, redobrou cuidados. Paralelamente, o esforço que Saulo fazia para se mostrar agradecido só serviu para aumentar seu ressentimento. Paulo, bonito e forte, limitado de cabeça, mas com pernas de atleta, andava quando ia trabalhar, andava ao voltar para casa, andava ao levar o irmão para passear na cadeira de rodas, enquanto ele, de pernas mortas, procurava lenitivo em livros e religiões. Nem neles, nem nelas, em nenhum lugar o encontrou; o amargor que lhe tomava o ser, qual um Midas invertido, contaminava tudo que tocava. Os autores de que gostava, via-os agora insípidos e o próprio Deus, que outrora lhe fora benfazejo, revelava-se indiferente ao seu infortúnio. A depressão só fazia aumentar, inoculada com o novo vírus do ceticismo nascente. Não é fácil engolir caroços de jaca, menos ainda fazer disso uma rotina diária.

            Enquanto Saulo tecia seu próprio inferno, desmentindo um de seus antigos ídolos, que ensinava que o inferno de cada um são os outros, Paulo, por seu lado, ignorante da situação, Paulo, o ingênuo, continuava a viver em seu paraíso particular, feliz como sempre fora, mais ainda, já que agora contava com a presença do irmão querido.

            E assim, naquela casa modesta, dá-se um milagre da natureza: no mesmo exíguo espaço convivem ao mesmo tempo um inferno e um paraíso. Quanto tempo durará esta dança dos contrários?

            Se depender do gêmeo caçula, sempre dissimulado, durará para sempre. Afinal, o acidente não lhe afetou a inteligência.

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