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SIGNOS


            Toda gente tem dois signos, um chinês e outro do zodíaco; eu tenho três, os dois indicados e mais um, do destino — ou das circunstâncias — não sei como chamá-lo. Há quem neles acredite, e os que não; também aqui não sei quem vale mais, suponho que a turma do sim. Ensinaram-me desde sempre a não ser negativista, por isso proclamo: bem aventurados os que creem, porque deles será sempre a esperança.

            Nem bem começo e acabo de escorregar para um estilo bíblico. Como sei que nada acontece por acaso, que tudo está determinado desde o começo dos tempos, soaria falso me desculpar agora, embora fosse muito fácil fazê-lo. O venerável respeito que nutro pelo leitor, no entanto, obriga-me a declinar de fingidas escusas e aproveitar o fortuito fado para pedir permissão e continuar narrando com outra expressão do mesmo estilo.

            Naquele tempo nascia-se em casa, às vezes por mãos de aparadeira. Era a primeira sexta-feira do signo e o Sol, despojado de nuvens, calentava o ar parado do meio inverno tropical. A modorra do almoço já se passara e mano velho arquitetava traquinagens com o primo Jaime quando a mãe mandou-os comprar batatas, dois quilos. A mãe andava devagar, pesada, tinha engordado muito nos últimos tempos.

            Saíram os meninos para cumprir o mandado, batatas de tamanho médio, novas e lisas, sem caruncho.

            A cidade pequena se assentava na encosta de uma colina e terminava pouco antes de um modesto ribeirão, à beira do qual dois chacareiros concorriam no fornecimento de gêneros, dona Chica e o Nêgo Tição. As freguesas preferiam dona Chica, mas a molecada, Nêgo Tição, magro, quase dois metros, boca sempre arreganhada num sorriso tão branco que parecia alumiar a cara toda preta. Contava histórias de saci e de boitatá e a de maior sucesso com a meninada, mula-sem-cabeça. As crianças mangavam do Tição, num creio-não-creio, mas, cumprindo sua natureza, pediam sempre conta-de-novo.

            Naquela tarde de não vento desciam os meninos pela rua. Desciam devagar, pés nus a se enfiar na poeira dormente, conversando filosofias de descobrimento. Na idade deles, nove e onze, o mundo é ainda um laboratório aberto para descobertas. Mais tarde irão crescer e se fecharão atrás de portas de preconceito, como quase todo adulto, e seu mundo ficará pequeno. Se um deles tiver a sorte de rara exceção, conservará o olhar do menino e será, então, um grande cientista, com o mundo aberto a seus olhos. Mas isto é futuro, não deve ser revelado.

            Jaime, o mais velho, fala. Não desconfiou de nada? Este negócio de comprar batatas é só desculpa para tirar a gente de casa. Você não viu como sua mãe engordou de repente? Aquilo é filho na barriga. Aposto que, na volta, a gente encontra um novo irmãozinho seu.

            Primo Jaime era mais velho, sabia das coisas, tinha experiência da vida. Por isso mano velho refugou da aposta, mas, no fundo, ficou matutando: Será?

            Os moleques desciam a rua devagar, mas a conversa era ligeira e o novo nascimento logo deu lugar a assuntos mais importantes, a compra da fieira para o pião novo, a coleção das bolinhas de gude e, mais que tudo, cadê o danado do vento para a gente empinar pipa?

            Os pés chutavam a poeira, que levantava e caía pesada. Ê paradeira!

            Chegaram afinal na chácara de Nêgo Tição, pediram as batatas, pediram as histórias, guardaram as histórias na cabeça e as batatas num saco de aniagem; pagaram só as batatas, que as histórias eram sempre de graça. Não sabiam ainda que as melhores coisas da vida também o são. Saberão. Um dia saberão.

            Quando voltaram para casa o Sol tinha andado mais que eles, já estava quase pulando o horizonte. Lembraram do menino novo e entraram pela cozinha, curiosos, os olhos correndo os espaços à procura de indícios, mas, amadores que eram, passaram sem notar pela chaleira de água que ainda fumava pelo bico. Percorreram os quatro cantos da cozinha; tudo normal. Foram para a sala e — aleluia! — ali, no terceiro canto, afundado em fofuras de panos limpos, dentro de um caixote de cebolas vazio, dormitava eu no meu primeiro sono. Jaime deu um sorrisinho maroto para mano velho: Não disse?

            Depositaram o saco de batatas a meu lado. Deviam de tê-lo posto na cozinha, que é seu lugar, mas, na ânsia da procura, nem se lembraram de fazê-lo. Quando viram na sala o objeto da procura, estavam de saco na mão e não pensaram duas vezes, puseram-no no chão, displicentemente.

            Ao escrever esta história podia eu fantasiar dizendo que os meninos, como novíssimos reis magos, vinham me reverenciar e traziam, no lugar de ouro e mirra, um singelo saco de batatas, condizente com as posses da família. Não o faço. Além de blasfêmia, seria de ultrajante mau gosto. Digo apenas que o saco de batatas, ali colocado, velou meu primeiro sono, e provavelmente tenha sido também a primeira coisa que vi ao ter o primeiro despertar; não lembro.

            Quando tudo isto me foi contado, pelo mano velho, não tive dúvidas, adotei as batatas como novo signo. Hoje, se me perguntam de signo, hesito: Qual dos três?

 

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