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DIA DA PÁTRIA


            O menino ainda não tinha idade para a escola, mas tinha vontade, nem tanto pela escola em si, um ser desconhecido que morava detrás do muro, mas por causa do irmão mais velho. Irmão mais velho é sempre ídolo, o menino ainda não sabia, só sentia. Queria ser como o irmão, grande, forte, queria vestir o uniforme do irmão, calção marinho e camisa branca de bolso bordado. Queria ter uma mala preta, cheia de cadernos, lápis, e até caneta. Uma lancheira, com o lanche gostoso que a mãe faz. E o beijo da mãe, quando despedia de manhã. E o alvoroço, quando voltava, hora do almoço.

            Naquele almoço o irmão voltara mais animado que de costume. Voltava sempre animado, mas naquele dia voltou mais, ia tocar repique no desfile da escola; dia da pátria estava chegando e tinham começado os ensaios. Falava e ria, todo contente, como passarinho na árvore. O menino escutava e ria junto, passarinho também. Marcaram na folhinha da parede o dia — bobagem, o dia já estava em vermelho. Mas não era bobagem, não, o círculo feito em torno era um ato de posse, o dia marcado era dos meninos agora, só a eles pertencia e, assim, seria mais fácil vigiá-lo, contar toda manhã quanto falta.

            O menino sonhava com o desfile, nunca tinha visto nenhum, no ano passado era pequeno demais e nem lembrava se já existia. Este ano seria diferente, ele já sabia que ele era ele, lembrava de tudo, do beijo de boa noite que a mãe lhe dava na cama, do medo do escuro e da voz do irmão dizendo dorme Tico, estou aqui. Lembrava das brincadeiras com o Fidélis debaixo das bananeiras do quintal, eta cachorrinho serelepe! Só não entendia por que o tempo demorava tanto a passar, uma enormidade entre o momento em que olhavam para o dia novo da folhinha, de manhã, e a hora em que iam dormir, quando riscavam o número do dia velho. Era muito tempo para o dia envelhecer! E o avô, que já tinha muitos e muitos dias de vida, cabelo branco e pele enrugada, como tinha aguentado esperar tanto tempo até ficar velho?

            O menino, ansioso, esperava, contava, faltavam duas carreirinhas de dias até chegar o dia da pátria e cada um deles que faltava era ele próprio uma eternidade. Duas carreirinhas de eternidade! Será que, quando chegar o dia da pátria, vou estar velho como vovô? Olhava no espelho, procurando cabelo branco na cabeça, franzia a pele da testa, mas as rugas apareciam só por um momento, depois sumiam.

            A verdade é que criança sofre! E os adultos nem percebem...

            O martírio da espera, dos dias que nunca acabam, afinal termina, chega ao fim e o menino aprende a metade da lição: os males um dia se vão; aprenderá a outra metade mais tarde: os bens também se findam. Não se adiante, contudo, o relógio humano, tudo tem seu tempo.

            A folhinha na parede não mente. Mãe, chegou! Amanhã é o dia da pátria!

            Deita cedo, quer dormir depressa para chegar logo de manhã, fecha os olhos para não ver o escuro, mas não tem como fechar os ouvidos, escuta gente falando na sala, escuta os latidos do Fidélis correndo atrás de algum gato; abre os olhos e o escuro ainda está aí. Fecha os olhos de novo, aperta bem, agora o escuro passou para dentro. Nunca tinha se dado conta, quando fecha os olhos o escuro passa para dentro! Resolve dormir assim mesmo, com o escuro dentro, afinal já sou um menino grande! Mas o barulho da sala e Fidélis latindo atrapalham; e o escuro fora, será que continua aí? Abre os olhos para verificar; está, sim, o escuro continua aí. Fecha os olhos de novo, escuro dentro... fora... dentro... vozes... sala... Fidélis... escuro...

            Manhã. Cadê o escuro? O menino ainda dorme, mas o escuro sumiu. O amarelo do sol entra espremido pelas frestas da janela e pinta uma zebra luminosa na cama, por sobre as pernas da criança. De tanto ela se agitar de noite o lençol e a colcha, caídos ao chão, agora cochilam na sombra e nem se dão conta de que a quentura das tiras se dispõe a provocar uma coceirinha gostosa nas perninhas desnudas. Hum... O menino se mexe, espreguiça como um gato — é da natureza dos meninos ser gatos; mais tarde serão leões, quando adultos, se não forem hienas... Acorda. Abre os olhos e a claridade os faz piscar; logo vê as listas de quentura nas pernas, mas nem se coça, nada o faz desviar a ideia fixa: É hoje! Chegou o dia da pátria!

            Levanta correndo, faz uma ligeira parada no banheiro e logo alcança a cozinha. O irmão já saíra para a escola. Agitado, ansioso, não consegue se manter quieto na cadeira, recusa a caneca quente que lhe dão, não quer pão, quer mais é sair correndo, se lançar na rua, não chegar atrasado. E pai e mãe, em sua frente, a passar manteiga no pão, pachorrentamente! A mãe, mais que o pai, se condói com o ataque de neurastenia do filho, enquanto o pai apenas se diverte com ele; mulheres são mais sensíveis e, se mães, ainda o são mais. Ela socorre o menino passando-lhe a mão sobre a cabeça, os dedos afundando entre os cabelos para acariciá-la, como o fazia sempre, desde o tempo da moleira tenra, e a voz, suave como o gesto: Calma menino! Toma o café sossegado, o desfile só começa às dez; vamos todos juntos, não fique aflito.

            Como gente grande não entende das coisas! Não fique aflito! Como vou fazer com o coração batendo desse jeito na costela? Falar com ele calma, não fique aflito?

            O carinho da mãe, contudo, é sempre um milagre, consegue acalmar um pouco o menino e até o faz beber o café com leite e comer um naco de pão.

            A família se aprontou, o menino pôs a roupa de missa e saíram à rua. O Sol, esplendoroso, pintava de ouro o mundo, mas pintava de verdade, de modo inteiro, não só de listras zebradas, como pintara as pernas no quarto. Vai ver o Sol também estava contente de sair às ruas.

            Logo chegaram à avenida. Tinha muita gente. Todo mundo feliz, vestindo cores, agitando bandeirinhas, rindo e falando, parecia que todos se conheciam. É que a felicidade, isto o menino já tinha aprendido, faz com que as pessoas falem umas com as outras, mesmo que não se conheçam e, se estiverem sozinhas, falam para o vento, talvez na esperança de que ele leve pelo ar as palavras e as vá depositando nos ouvidos que for encontrando pelo caminho. A gente consegue esconder as mágoas dentro do peito, mas não consegue prender a felicidade; é de sua natureza extravasar, se expandir, contaminar o mundo.

            O menino e a família do menino alegremente se deixam contagiar e, como já vinham felizes de casa, contribuem para a contaminação geral espalhando novas e bem-vindas cepas. Como esta virose não tem período de incubação, seu efeito é imediato e cumulativo, o que faz o povo ir aumentando falas e risos, numa agitação de braços e bandeiras.

            O menino se encanta com as bandeiras, grandes, pequenas, de pano ou de papel, todas com mesmas cores e desenho, agitadas, tremulando ao vento. Por que iguais? A mãe explica, são bandeiras da pátria. E o menino pensa, deseja, ah, se tivesse uma!

            De repente, lá vem a primeira escola! Não é a do irmão, mas é bonita, de uniforme vermelho e branco. A fanfarra tocando e os alunos marchando. Vem na cabeça a lembrança engraçada: Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso pro quartel! O menino ri, mas logo sacode a cabeça e a lembrança escorre pela orelha e cai esquecida no asfalto da avenida.

            E agora vem a segunda escola. Esta, sim, deve ser a do irmão, calções marinho e camisas brancas de bordado no bolso. Os meninos marchando garbosos e a fanfarra logo atrás. Olha o irmão! Tocando repique na caixa, as varetas no sobe-desce, todo pimpão! Ah, que gostosura! Podia ser eu. Quando crescer quero ser igual o irmão! Marchar na avenida, tocando repique, vendo o povo bater palma na calçada, agitando bandeirinhas...

            E o menino, que não tem nenhuma bandeirinha! Bem que podia alguém lhe dar uma. Ia ficar contente, balançar ela pra lá e pra cá, festejando o desfile, as escolas, os meninos...

            Olha tio Juca chegando agora, sempre atrasado esse tio. E ele tem uma bandeirinha! Que linda! Vem contente, agitando a bandeira com força, não rasga, é de pano. Que linda! Tio, dá a bandeira pra mim?

            Juca para o agito, olha para o menino, coça a cabeça, sorri e diz: Toma! O menino, com sofreguidão, estende o braço e pega... o dedo de Juca! O tio gargalha, balançando a barriga. O menino, desenxabido, recua. O tio gasta a gargalhada até o fim, para de rir e fala de novo: Toma, moleque! O menino faz que não. Juca insiste: Toma, moleque! O menino hesita, mas a vontade é tanta! Devagar ele levanta o braço para pegar a bandeira, mas, na hora agá, Juca faz um trejeito e o menino torna a pegar seu dedo. O tio gargalha de novo, sacudindo a pança.

            O menino desiste. Juca tenta outra vez, mas o menino não olha mais para ele. Insiste; recusa. O menino não quer mais a bandeira. A alegria murchou, o coração pisou no breque e a boca arfante deixa agora escorregar o último sorriso, que havia se enroscado na garganta, e que cai também no asfalto e talvez acabe por se misturar com aquela lembrança esquecida.

            O Sol, envergonhado, se esconde atrás de uma nuvem e desce do céu uma sombra pesada que descolore as bandeiras.

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