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PIMPOLHO NASCEU

 

Foi anteontem, 31 de janeiro de 2026, que o Pimpolho nasceu. Foi parto natural, pouco depois das 3 da tarde, peso e tamanho normais. Pouco antes, lá pelas 2 horas, fomos avisados que nossa filha Mariana estava entrando em trabalho de parto. Miyako e eu pegamos um Uber e fomos para a Maternidade. Estivera minha mulher há cerca de uns vinte anos na mesma Pro Matre, ali na região da Paulista, para uma cirurgia. Quando o carro parou estávamos diante de um conjunto de prédios modernos; que fim levara aquele prediozinho antigo? É o progresso! sentenciou ela. Informaram-nos que o quarto de Mariana era o 669. Em lá chegando, depois de algumas peripécias labirínticas, vimos que a porta estava trancada e não havia ninguém dentro; estava vazio. Por uma atendente próxima soubemos que nossa filha devia de estar em outro andar, onde aconteciam os nascimentos. Identificados como pais, a atendente ofereceu-nos a chave do 669 para que lá aguardássemos.

            Ao entrarmos no quarto sentimo-nos os próprios reis da cocada preta. Luz já acesa, dimensões exacerbadas, ar-condicionado marcando 22 graus, cama e sofá enormes e, do lado, pequena poltrona estofada com pufe para pôr os pés. Uma porta interna dava para um banheiro bem equipado. Tudo limpo, tudo tão branco que até dava dó de usar. Ah! como fui esquecer? Na parede, uma televisão de 50 ou 60 polegadas, abençoadamente desligada.

            Ficamos nós dois lá no quarto, aguardando a vinda do moleque. Lógico que não ligamos a televisão, só ficamos conversando. Ainda bem que a gente ainda sabe fazer isso, porque demorou um bocado para a entrada triunfal do Pimpolho. Veio ele no colo da mãe, ela deitada em uma cama de rodinhas, e, lógico, acompanhada do Alexandre, o pai babão.

            O garoto estava todo vestido, com luvas nas mãos e gorrinho na cabeça, que não deixava ver as orelhas. Fiquei pensando: será que elas são pontiagudas? Vocês sabem que sempre desconfiei que minha filha fosse alienígena.

            Divido agora as próximas linhas em dois momentos.

            Primeiro momento. Miyako, quando viu o novo neto, quase desmonta. Deu de exclamar sem parar: Que bonitinho! Que bonitinho! Perdeu a noção de economia. Repetia e repetia, mas não gastou tudo, não. No dia seguinte, em nova visita, repetiu tudo de novo. Eu, que sei muito bem ver a vida, entendi: aquele danadinho, ainda sem abrir os olhos, acabara de roubar-me a mulher.

            Cheguei perto do garoto, já preparado para dizer “tem cara de joelho”, como, aliás, todo recém-nascido tem; mas ele, o Pimpolho, não tinha, não. Aí imitei: Que bonitinho!

            Estava eu preparado para ver um bebê de cara inchada, como todos os que já tinha visto na vida, mas aquele tiquinho de gente tinha a cara lisa, bem lisinha. Ora, ora, vai ver que os partos modernos já evoluíram e os bebês hoje já nascem com cara de gente. Não é que o Pimpolho era mesmo: bonitinho?

            Aí fiquei sabendo que ele nascera roxinho, mas que, poucos segundos depois, já estava cor-de-rosa.

            Pena que não deu pra ver a ponta da orelha. Seria mesmo um alienígena?

            Segundo momento. Incomodou-me, desde o primeiro instante, o fato de o menino usar luvas em ambas as mãos. Disseram que ele ainda era muito sensível ao frio e precisava ficar bem agasalhado, com touca na cabeça e luva nas mãos. Achei bem estranho, pois estamos em um país tropical e no meio do verão. Resolvi, então, fazer uma pergunta para o pai fresco, o Alexandre:

            - Quem você acha que é a mais esperta, a espécie humana ou a natureza?

            Ele respondeu sem titubear.

            -  A natureza.

            Aí comecei, então, meu longo arrazoado, que resumo a seguir.

            Antes de nascer, toda criança fica alojada no escurinho do útero materno, longe de luzes e barulhos. Além do silêncio confortável, ela vive suspensa dentro de um balão de líquido, boiando sem sentir peso algum. Não faz força para respirar nem para comer, tudo vem de graça pelo cordão umbilical. A única coisa que o feto faz dentro do útero é chupar o dedão da mão. O bichinho continua nesse bembão até que chega o nono mês. Aí ele é espremido, cabeça, tronco e membros, para passar por um lugar estreito e cai neste nosso mundo velho e torto, sem nenhuma preparação prévia. A diferença entre o bom e o ruim é patente e vem com assinatura: o choro. Não há criança que nasça sem reclamar; todas choram.

            Além de toda a violência do nascimento, a espécie humana é criativa, inventou outra: não deixar o bebê chupar o dedo. A única ação que essa criaturinha estava acostumada a fazer, agora lhe é impedida pelo pano grosso que lhe cobre as mãos.

            Uma verdadeira mente científica como a minha não poderia deixar de fazer a pergunta óbvia: por que a natureza fez o feto chupar o dedo, estando ainda dentro do útero? Antecipo a minha resposta e soluciono a questão. Chupar o dedo é o primeiro exercício que faz o ser humano. Serve para reforçar a musculatura da boca, facilitando e tornando eficiente o futuro ato de mamar no seio materno.

            Cobrados por mim, os pais consultaram a médica que atendeu o parto. A doutora ficou em dúvida e sugeriu seja ouvido um médico pediatra. Dentro de uma semana, em consulta já agendada, saberemos a opinião do clínico. Se não for igual à que tenho eu, continuarei com a minha. Quem me conhece sabe: sou teimoso.

            Sim, agora vem a hora de um novo momento, a escolha de um nome para o Pimpolho. O certo, aliás, é chamar esse momento de velho e não de novo. Todos lembram que os pais do atual novo nosso neto ficaram os nove meses de gestação em dúvida de qual nome dar ao rebento. Pois bem, resolveram agora e escolheram um nome que calhou ser igual a um dos meus melhores amigos, sempre lembrado, jamais esquecido: Pedro.

            Vida longa e próspera, Pedro!

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