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UM PLANETA ESPECIAL

 


            O amante de coisas belas certamente o será também de um céu estrelado. Para melhor vê-lo será necessário fugir da iluminação das grandes cidades, que mata o céu. Prefira uma noite sem luar, quando estrelas brilham mais. Em nossas latitudes austrais é fácil ver o Cruzeiro do Sul, desde criança nosso conhecido. Então é só olhar para a esquerda da cruz e serão vistas duas estrelas tão brilhantes como as do Cruzeiro; não a que está mais perto, mas a outra, é a mais brilhante da constelação do Centauro e, por isso recebe o nome de Alfa. É ela a mais próxima de nossa especialíssima estrela, o amado Sol.

            Quando olhamos para o céu vemos as estrelas como unidades luminosas, mas isto é falso, nem sempre elas são unas, às vezes são duplas ou até múltiplas. Nós as vemos como unidades devido à espantosa distância em que elas estão de nós. Dois ou mais astros que ali podem estar, somam suas luzes como se fossem de uma única fonte. Este é, precisamente, o caso da Alfa Centauri: ela é uma estrela tripla, ou seja, não é apenas de um, mas de três astros, os brilhos que vemos somados e unidos como se fossem uma só luz. As três estrelas formam um sistema fechado em que gravitam simultaneamente entre si. Duas delas são do tamanho de nosso Sol e de igual temperatura; a outra é uma bem menor, categoria anã, e muito mais fria. Pois é esta pequenina que fica mais perto do sistema solar, e daí receber de nós o nome Próxima. Não, o leitor não poderá vê-la com um telescópio caseiro, somente com um instrumento profissional; de casa só verá as duas irmãs maiores.

            Em 15 de fevereiro de 2022 os jornais estamparam a descoberta, feita por astrônomos do norte do Chile, de mais um exoplaneta, o Próxima d. Exoplaneta é um neologismo criado para designar planetas que não pertencem ao nosso sistema solar. Este de agora leva o nome da estrela Próxima, que, como vimos, está pertinho de nós; mas pertinho em astronomia é um conceito muito relativo que costuma fugir do bom senso. Próxima está a pouco mais de quatro anos-luz de distância, ou seja, espaço que a luz leva quatro anos para percorrer. Note-se que a luz é a campeã do universo, nada é mais rápido que ela, em apenas um segundinho contorna a Terra sete vezes e meia. Se fôssemos viajar até a estrela Próxima com a tecnologia que hoje temos, levaríamos mais de um século para lá chegar.

            A letra “d” minúscula indica que outros planetas teriam sido descobertos antes, e receberam as letras “a,b,c”. Então por que, ainda que anteriormente detectados, não viraram notícia de jornal? Porque não são especiais como o de agora; o “d” é especialíssimo por ser o mais pequeno exoplaneta até agora conhecido. Tem ele apenas um quarto do tamanho da Terra e, como ela, também é rochoso. Outra característica que o distingue como único: gravita pertíssimo da estrela mãe, dez vezes mais próximo dela do que Mercúrio é de nosso Sol. Só não é vaporizado pela estrela porque ela não tem a mesma quentura do Sol. Considerando as condições locais, os astrônomos concordam que o planetinha reúne atributos que permitem a existência de vida. E eu, que em vez de astrônomo, sou futurólogo, vou mais longe: não terá ele, também, vida inteligente?

            A futurologia é uma ciência muito bem estabelecida, pena não ser ainda plenamente reconhecida. Usando ferramentas científicas, posso assegurar que nossa espécie humana, ao contrário do que afirmam agoureiros ignaros, ainda conseguirá existir daqui a mil anos. Certo que não haverá mais os oito bilhões de indivíduos que hoje poluem o mundo; a humanidade terá aprendido que o planeta não foi feito para tanta gente. Haverá, sim, metade ou um terço disso, e todos viverão contentes os seus duzentos e poucos anos. Sim, sim, o progresso da medicina conseguirá dobrar o tempo de vida da espécie humana. Não haverá mais guerras, graças aos avanços da matemática — em especial graças ao Teorema José Silva — que mostrarão que elas jamais atingem os objetivos propostos. Pílulas de nutrientes concentrados darão fim à obesidade, e os poucos recalcitrantes serão tratados em estabelecimentos psiquiátricos. A Lua será florestada e recuperará uma atmosfera respirável, e se tornará o principal roteiro turístico para as férias escolares. Viagens interplanetárias dentro do sistema solar serão rotineiras, depois de descoberta a velocidade quântica. Daqui a novecentos anos, mais precisamente no ano 2984, mil anos depois de Orwell, será feita a primeira viagem estelar, e Próxima d será o destino. Aí então a humanidade vai ver que não está sozinha neste universo imenso.

            Para o leitor que não tem paciência e já se encontra enfadado, tchau e bênção; se for paciencioso, digo a seguir como será o primeiro contato.

            O astronauta visitante seguramente terá tido um treinamento na Lua, para não estranhar a pouca gravidade do planeta. Mesmo assim, usará pesos de ferro em suas botas, para não ficar quicando no solo como bola de basquete. Provavelmente será recebido por algum plenipotenciário proximiano, e aqui começa a demonstração de quão é perfeita a ciência da futurologia. Esse dignitário terá três metros ou mais de altura e será magérrimo, pesando menos de trinta e cinco quilos terrestres. A pequena gravidade do planeta é que terá permitido o crescimento da criatura, e o pouco peso demonstrará a desnecessidade de ossos fortes e músculos possantes. Não, não terá ele, sequer, a menor parecença com a figura humana; será mais igual a um louva-deus. Será um jovem indivíduo de sua espécie, contando com pouco mais de 2.700 anos, o que equivale a cerca de 38 anos terrestres. São tantas as variáveis do caso, que esqueci de mencionar que o planeta completa uma volta em torno da estrela a cada cinco dias terrestres; ou seja, cinco dias fecham o ano calendário e a média de vida lá é da ordem de dez mil anos. O gigante magriço, que no cérebro do astronauta será percebido como um imenso ponto de exclamação (assim ele relatará posteriormente), se expressará por chiados e pequenos guinchos, e só será entendido porque nosso homem estará equipado do tradutor universal, genial invenção da doutora Nakamura, Nobel do ano 2790. Apesar do avanço tecnológico do aparelho, não será fácil entender o que a criatura falará ao representante da raça humana. Após alguma troca de amenidades e depois de longas informações científicas e sociais, a conversa entrará pelo pantanal viscoso da filosofia, e aí, talvez por deficiência de nosso embaixador, uma dúvida ficará no ar.

            O astronauta vai jurar que, no fim da conversa, o proximiano terá perguntado por que a humanidade é tão infeliz. — Não, não é não, terá ele respondido.

            — E por que, então, vocês viajam tanto? Não estão felizes dentro de sua casa?

            Nossos sábios procurarão decifrar a mensagem. É pena, mas a futurologia ainda não sabe a solução do enigma.

 

Comentários

  1. Adorei esse conto, muito boa a criatividade imaginativa desse meu sogro, um pouco poeta, um pouco professor, um criador de imagens e de sonhos para o nosso deleite de imaginações. Parabéns Grande Waldemar Basílio✨👏👏👏👏👏✨❤️✨🥰✨

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