Ainda antes
da pandemia e do ano de trevas, quando todos nós éramos felizes e não sabíamos,
ainda naquela saudosa e ingênua época era hábito, para quem podia, ir à
consulta dentária ao menos uma vez ao ano. Como tinha minha conta bancária no
azul, estava eu placidamente aguardando vez na sala de espera de dra. Helena.
Perfeccionista como só ela, era um brinco a referida sala: móveis dispostos,
tapetes com desenhos geométricos e mesa de revistas, no tampo da qual chamou
minha atenção um punhado de folhetos. Eram do Conselho Federal de Odontologia e
tinham como título “CONCURSO DE CONTOS”, o qual utilizo para batizar a
historinha que vou contar. Falta de imaginação? Pode ser, mas é um plágio
inocente que não causa mal e, por isso, devo ser perdoada. O que dizia o
opúsculo? A primeira página trazia a notícia do sucesso do concurso reservado
aos profissionais da área, quantidade de participantes, excelência da comissão
julgadora e identificação resumida dos três vencedores. Fiquei satisfeita em
ver que eram duas mulheres e apenas um homem, e elas na frente dele. Não, não sou
feminista, apenas mulher, e não tenho vergonha de confessar a alegria sentida,
já que desde o plioceno vimos nós mulheres sofrendo maus tratos dos machos da
espécie. Mas isto já é outra história, que fica para outra vez.
O terceiro
colocado era um José das quantas, do Rio de Janeiro, e seu trabalho, redigido em
primeira pessoa, era uma aventura mal alinhavada de um marido infiel que se
jactava dos artifícios espertos que usava para enganar a crédula esposa. Pouca
qualidade, talvez uma única a revelar o machismo do autor. O segundo lugar era
de uma Maria de tal, das Alagoas, que contava a pescaria de um menino com o pai
em uma praia do nordeste. Quem já conheceu aquelas praias sabe do paraíso que
elas são. A história do conto é uma graça, mas, infelizmente, é contada com
pouca graça, uma descrição de arquiteto, com muita medida e escassa alma,
construção geométrica de ângulos e arestas, pouco emotiva, embora respeitando
regras de gramática.
O conto da
vencedora, uma Alice gaúcha, de Bento Gonçalves, era bem melhor e mereceu
ganhar. Bem escrito, sem pressa de acabar, contava cenas da autora, quando
menina, com a avó, em anos que longe vão. Não há indicação da idade dos
concorrentes, mas seguramente esta Alice já terá passado dos trinta, pois
revela, na história, ter duas filhas pequenas. O texto começa com um título
intrigante: “ABÓBORA CARAMELADA”. Qualquer pessoa que já tenha andado pelas
serras gaúchas conhece a iguaria; costuma ser servida junto às carnes do
churrasco, e pode ser apreciada em qualquer restaurante de estrada. E como é
que essa abóbora caramelada vem entrar na história da menina e da avó? Aí já
começamos a ingressar no terreno da graça, graça que faltou aos outros dois
contos. Não sei se a moça inventou a história ou apenas a foi buscar nos
desvãos da memória, o fato é que ela é bem urdida – inusitada, é certo - e por
isso interessante. Ainda que sofra de fraca credibilidade, com uma pitada de
boa vontade é possível lhe dar fé. Vamos a ela.
Conta a
autora que, menina, viveu na casa da avó. Como o Rio Grande é o Estado por onde
entram no Brasil as frentes frias, é também onde há muitas tempestades com
raios e trovões. Pois não é que a menina, com seus seis ou sete anos, tinha
verdadeiro pavor de trovões? Ora, direis – com perdão do Bilac – o que tem isso
de novidade? Todas as meninas também têm o mesmo medo, é coisa useira e
vezeira. A diferença é que nem todas têm uma avó ao pé de si. Quando os trovões
estouravam, geralmente em noites fechadas, a menina pulava da cama e corria
para os braços da avó, no quarto contiguo, e eles, braços, estavam sempre
abertos a sua espera. Acolhida no regaço quente da nonna, a menina
enfiava a cabeça entre os seios fartos e tremia, tremia. Mas aquela quentura
dos peitos da avó ia fazendo o tremor descer devagar pelo corpo até sair pelos
pés, levando o medo com ele. Não demorava, no entanto, que outro trovão
estourasse e o tremor então voltava.
— Santa
Bárbara! exclamava a avó, e estreitava outra vez contra o peito a cabeça da
netinha.
A cena se
repetia mais um poucochinho de vezes, mas o medo era tanto que parecia durar a
noite inteira. Se até Jeová cansou e folgou no sétimo dia, também Zeus, depois
de um tempo, cansava de lançar seus raios e ia, ele próprio, tirar uma soneca.
Aí, já que a menina estava na cama segura da avó, nada mais justo que ali
ficasse até o clarear do dia. Já pensou? Uma noite inteirinha dormindo aninhada
naquela avó macia? De manhã acordavam as duas com o surgir do sol e o sorriso
delas era mais largo do que o do astro rei. Como? Não sabia a leitora que o sol
sempre nasce sorrindo? Só vai perdendo a alegria ao ver as insanidades
perpetradas durante o dia pela espécie humana; à tardinha, já desanimado, puxa
uma nuvem distraída como coberta e se deita contraído pois a noite vai ser
fria.
No entanto,
antes que isso aconteça outra vez e o dia termine, a avozinha tem uma missão a
cumprir, ainda antes do almoço; tem de preparar um belo prato de abóbora
caramelada. Não faça, desconfiado leitor, essa cara de espanto. Pergunte à sua
amiga aí do lado, e ela vai lhe explicar que é o prato predileto de santa
Bárbara e que, com certeza, a avó devota terá prometido à santa, na hora aflita
dos trovões, uma regalia dessas para o almoço. Esses homens não sabem de nada!
Ainda bem que sempre têm uma mulher ao lado para lhes explicar as coisas
importantes da vida. Elas podem não saber do sol, mas de santas sabem tudo.
Logo depois
do café, a menina é mandada a buscar uma abóbora de bom tamanho na chácara
vizinha, de seu Tuneca. O homem já estava de prontidão, com um belo exemplar
colhido, afinal ele sabe de cor que, depois da noite de tempestade sempre vem o
dia da bonança, a saber, dona Gertrudes vai fazer abóbora caramelada e ele vai
ganhar alguns pedaços. O filho do homem, o Tunequinha, moleque de seus dez
anos, está contente como o pai, também gosta muito do doce de dona Gertrudes,
mas gosta mais ainda da menina de cabelo preto comprido. E ela já vem aí, pelo
caminho de terra batida, está quase chegando. É uma gostosura ver e mexer naquele
cabelo grosso e macio. Teve até um dia em que ajudou a pentear o cabelo da
menina e foi uma cena que deu gosto ver, tanto carinho de gestos, mal sabiam as
duas crianças que estavam repetindo a ação de duas outras, que viveram da pena
de um escritor famoso, um século antes daquele dia. Se houve alguma diferença
entre as duas cenas, talvez fosse apenas pelo jeito de olhar, uma das meninas
tinha o olhar reto, a outra, obliquo.
A abóbora
colhida era muito pesada e, por isso, seu Tuneca mandou o filho levá-la para
dona Gertrudes. Tunequinha não se fez de rogado e aceitou o serviço com uma
alegria que lhe desenhou na face um sorriso de orelha a orelha. Afinal, era
mais uma oportunidade de estar só com Licinha, só ele e ela, e a abóbora de
permeio. Há que se levar em conta que o moleque, três anos mais velho que a
menina, já tinha um começo de hormônios correndo pelas veias, enquanto ela
continuava com os pés fincados na meninice. Sentindo, mas não entendendo bem o
que sentia, Tunequinha tinha impulsos de abraçar a menina, mas um dos braços
estava todo ele no serviço de carregar a abóbora e, assim, sobrava livre só o
outro, que, sozinho, não bastava para o abraço. Não sendo ainda um homem
completo, no garoto já germinava, junto com a vontade, a falta de imaginação
característica do gênero masculino, para o qual tudo é preto ou branco, pau ou
pedra, ou o fim do caminho. Não via ele as nuances do meio termo. Quem resolveu
a questão foi Licinha, que, com intuição feminina, tomou da mão de Tunequinha e
passaram a andar de mãos dadas, ela como se levasse sua boneca, ele, carregando
um tesouro. Surpreendeu-se o menino com o calor daquela mão e, em seguida, com
a suavidade da pele, pele de pêssego; teria a mão também o cheiro da fruta?
Tivesse ou não, o que não faz o desejo, o nariz já começava a senti-lo...
Não,
leitora piedosa, as reticências agora colocadas não são o prenúncio de uma ação
mais ousada do rapaz. Embora não tenha sido dito, diga-se logo que ele tem boa
formação moral e não praticaria nenhum movimento reprovável. As reticências?
Ora, são elas apenas cacoete de estilo. E já que estamos falando da inteireza
ética do Tunequinha, e até para aplacar preocupações, não custa dizer que no
futuro ele será o Tunecão, tão desenvolvido e cheio de carnes estará. E não
será outro senão o marido da menina de cabelo comprido, e já terá o casal
colocado no mundo duas novas meninas, ambas de cabelo preto.
Não fora a
preocupação da pudica leitora, não teria me desviado da linha reta do presente
relato. Desculpo-me, mas registro solidariedade a ela. Nós, mulheres, somos
sempre muito sensíveis às liberdades que os homens tomam conosco e, no caso, em
especial, se são contra crianças.
Voltemos,
pois, à linha reta. Está neste momento dona Gertrudes ao lado do fogão a lenha,
as brasas sendo avivadas por Licinha, que agita a tampa de uma panela. Começam
as duas a preparar a abóbora, ainda agora não caramelada, o açúcar virá depois.
Por enquanto são somente grossas fatias antes cortadas pela avó, que não deixou
a neta trabalhar com o facão; o tempo disso também virá; por ora a menina só olha
com atenção e vai aprendendo. As meialuas, suspensas numa rede, começam a cozinhar
no vapor do caldeirão, é só um quebra-gelo, depois irão para a frigideira
grande. Ainda quase não cheiram; parecem guardar o bembão para mais tarde. A
avó espera paciente, a menina não, uma e outra de acordo com sua idade, a
placidez da velha e a urgência da criança; um mundo já feito e outro por fazer.
Não sei a
leitora, mas eu não tenho paciência; não que não seja velha como a Gertrudes:
Matusalém chegou aos 969 anos, eu estou quase lá; no entanto, continuo mais
Licinha do que dona Gertrudes; deve ser defeito de nascença, o que os doutores
hoje chamam de de-ene-á. Por esta razão, e não por outra, ponhamos logo essa
abóbora caramelada na mesa e abreviemos a história, que já vai se alongando
demais. A autora do conto põe as duas à mesa e toca a recordar as impressões
produzidas pelo doce pronto. Aí tem ela uma ideia admirável, põe-se a comparar as
sensações da abóbora com as sentidas por aquele escritor francês, ao se recordar
da madeleine. É claro que a abóbora caramelada ganha da madeleine; para começar,
o biscoito é seco e a abóbora, suculenta; e a gente sabe que a secura quase
sempre está ligada a coisa ruim, que não me deixe mentir o Graciliano e suas
vidas ressequidas. Outras sensações poderiam ser comparadas, mas a coisa ia
ficar longa demais, e a autora não quis emular o moço gaulês, que escreveu sete
livros de letrinha miúda em busca do tempo perdido. Não ensinaram a ele que o
tempo, uma vez perdido, não se acha mais. Devemos lembrar, por fim, que a madeleine
fora comida molhada, boiando em uma xícara de chá; precisou disso para aliviar
a secura.
E assim,
com essa vitória brasileira de cheiros e gostos, encerra a autora o seu conto.
Poderia ter explorado mais as emoções da lembrança do peito macio da avó, e da
saudade deles agora que a avó virou recordação, e a sensação de segurança que
aquele regaço quente trazia. Creio até que poderia revelar que suas filhas não
se cansam de repetir as mesmas cenas, quando novos trovões hoje acontecem, e
que é uma alegria gostosa aninhá-las junto aos seios; tão bom que até aquele
medo antigo foi perdendo força e, agora, Alice chega a ansiar pelas tormentas. Poderia
dizer também que ela ainda evoca santa Bárbara e, igualmente, promete a ela uma
travessa de abóbora caramelada, assim que amanhecer. Seria a forma que achou de
manter a tradição. Engana-se, é o jeito de impedir que o passado dela fique
também perdido. Outras coisas poderiam ter explicação. Por exemplo: a menina
era órfã? (na história não aparecem nem pai, nem mãe); quando morreu a avó e qual
é a profissão de Tunecão, o marido? Em defesa de Alice digo eu que, se tudo
isso fosse explicado, não teríamos um simples conto, e sim um romance.
Permita-me também,
jovem leitor, de ir mais adiante na explicação do que é um conto. Antes de mais
nada, é uma invenção; o que ali consta pode não corresponder à realidade; pode
ser tudo mentira, embora o autor jure verdade. Não acredite nele, desconfie
sempre. E se eu disser que essa tal Alice nunca existiu, que foi invenção
minha? É de notar que acabo de usar um “se” condicional, o que faz com que a
verdade continue escondida. E se, olha eu abusando outra vez da condicional, e
se eu própria não for uma mulher, mas um homem, e que preferi me fingir de
mulher para mais fácil falar do machismo nacional? Se é tudo mentira ou
irretocável verdade o leitor nunca saberá, e olhe eu aprontando mais uma: não é
que acabo de transformar uma história nostálgica em um conto de mistério?
Sendo a
angelical Alice, e sua história, verdade ou não, não importa, o objetivo foi
sempre agradar os dois leitores que me honram. Espero que tenham gostado; se
sim, agradeço, se não, faço como o irreverente Brás Cubas: dou-lhes um
piparote.
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