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O MAR

 

            Quanta gente já falou do mar! Um até cantou que é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar... Não concordo, acho que morrer é sempre ruim. Outro dizia que o mar é salgado por causa das lágrimas derramadas pelas mulheres de Portugal. Ora, qualquer contabilista habilitado certificará que o sal contido naquelas lágrimas nunca seria suficiente para salgar tanta água; Pancettis do mundo inteiro se notabilizam pintando marinhas que enfeitam os museus; escritores não se cansam de descrever cenas poéticas do pôr do Sol, quando ele mergulha no horizonte líquido, ou de raios da Lua a se banhar em suas águas negras. Quero eu humildemente juntar minha palavra pobre a essa cornucópia tão rica.

            Antes de tudo quero relembrar uma verdade: o mar é mãe, mãe de todos os seres vivos que habitam nosso planeta azul, aliás, impropriamente chamado de Terra, quando deveria sê-lo de Água, já que mais de três quintos dele de mar são. Se mar é mãe, por que nossa amada língua resolveu atribuir-lhe o artigo masculino? Por que não fez como os vizinhos de além Alpes: “la mer”, nome tão feminino quanto “la mère”? Deveríamos nós, filhos da língua portuguesa, imitar os irmãos gauleses. Imagine só, a simples enunciação de uma frase começando com “a mar” já traria em seu bojo o conceito mais sublime que um dia a humanidade conseguiu criar, o verbo amar. Ao falar de mar, já se estaria falando de amor. Não seria de causar inveja ao mundo todo? Não aos gauleses. Têm eles a sorte de associar “la mer” a “la mère”, pois foi no mar-mãe que primeiro surgiu a vida. Não foi em suas águas primevas que nasceu o primeiro protozoário? Daquela ameba autogênita proviemos todos nós, que nadamos, andamos e voamos, que povoamos terras, mares e ares. Desse útero prodigioso nasceram seres sublimes como a baleia e o beija-flor, e seres terríveis como o tiranossauro e o homem. Destes dois, um o meteoro matou, o outro mata o planeta.

            O homem, que de “sapiens” só tem o nome, é na verdade o bicho da goiaba, o verme que rói o corpo do hospedeiro. Sua ganância sem fim conspurca terra-mar-e-ar. Um dia morrerá por inanição, já que o solo maltratado não mais produzirá seu sustento, e por asfixia, causada pelo carbono que temerariamente lança aos céus.

            O mar pode ser manso como nas noites em que a Lua reflete seus raios no manto liso das águas, ou pode ser violento, quando reage ao vento forte que o encrespa em procelas. Da Lua é enamorado. Quando ela sobe aos céus ele se alevanta em seu encalço tentando engolfá-la em um abraço de amor. É desta forma que são feitas as marés e não, como pensam alguns, por uma lei inventada pelo senhor Isaac.

            O mar, como mãe de todos, amorosamente costuma brincar com seus filhos. Combina encontro com jovens esbeltos e amorenados de sol que se divertem em deslizar em sua superfície, atleticamente aboletados em leves pranchas brancas. Ora os deixa navegar sem susto, ora os encobre em tubos d’água, vez ou outra os derruba em tombos homéricos. Passam o dia inteiro nesses folguedos e quando a Noite invejosa chega sorrateira os garotos se despedem, prometendo voltar pela semana.

            O mar é neurastênico, dado a assomos de paixão, talvez por causa da idade senil. É comum surpreende-lo golpeando com suas mil cabeças as rochas que o limitam. São golpes fantásticos, de violência impar e é bom que vivente algum deles chegue perto. Se calha de a noite ser escura, aí então o espetáculo é dantesco, dá até para suspeitar que é loucura de amor. A Lua, essa ingrata, não apareceu no céu negro e o mar, doente de saudade, se descontrola, esbraveja e parece querer quebrar o mundo. Nessas ocasiões rebenta como martelo nas praias duras, ferindo as conchas e pedregulhos, moendo-os em pedaços cada vez mais finos. Como tem sempre esses arroubos, repete-os por milênios até que um dia se arrepende, e nas manhãs desse futuro, volta mordido de remorso, e se põe a acariciar a areia macia, resultado das antigas noites de fúria. Sobre ela se derrama em beijos castos e a pinta de espuma na louca faina de curar a dor causada.

            Nem sempre o mar é culpado das tragédias que provoca. Quantas vezes, adormecido, quem sabe até sonhando, é despertado bruscamente por um terremoto? As placas tectônicas que lhe servem de leito de repente se desentendem e entram em atrito. O conflagrar daquelas massas imensas provoca ondas de choque que elevam as águas transformando-as em armas mortais. Populações litorâneas são dizimadas pelo maremoto, mas o mar não é o culpado. Tritão é inocente, foi Vulcano que golpeou sua bigorna.

            O mar também é brincalhão e às vezes nos prega uma peça. Dele já fui vítima algumas vezes. Conto a última.

            Estava eu desfrutando uma manhã ensolarada em uma das belas praias de nosso país, sentado numa cadeira à sombra, tomando uma caipirinha gelada, quando as ondas espumantes do mar fazem nascer uma figura feminina esplendorosa, verdadeira vênus de Botticelli. Aquela deusa deslumbrante me vê e, saindo das águas, abre os braços e corre para mim. Descanso a caipirinha na mesa que tenho ao lado e me levanto petrificado, sem saber como agir. Meu Deus, não mereço tanto! Ela vem, correndo, sorrindo, de braços abertos, e o máximo que consigo fazer é também sorrir. Fecho os olhos, incrédulo, e quando os torno a abrir a deusa havia passado por mim e ei-la abraçando um garotão de corpo tatuado, que se instalara na barraca pouco atrás.

            Restou-me um desalento e a filosófica constatação:

            — Era mesmo muita areia para meu caminhãozinho!

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