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SONHO

 

            Primeiro uma explicação, depois, a história; uma sem outra é como pão sem manteiga. Quando alguém sonha, costuma ser a pessoa principal do sonho, tudo que acontece a ela se refere. Neste sonho que vou contar a coisa se complica: surpreendo-me, eu sonhador, incorporado a outra pessoa, que chamo de sonhado. É como se um ego tivesse invadido o corpo de outro ego, só que, ao contrário das histórias de terror, não existe dominação nem guerra entre eles; convivem placidamente. Contudo, somente um deles tem consciência da dualidade, o ego do sonhador, ou seja, o meu. O sonhado nem desconfia.

            Esclarecido o ponto, vamos sem mais delongas ao prometido sonho, que por ser um tanto estranho, talvez até leve a desconfiar de incipiente esquizofrenia, tese que peço ao precavido leitor não abraçar porque, ao final do relato, encontrará justificativas.

            Sonho que estou sonhando e, ainda dentro do sonho, que desperto de manhã, abro a janela do quarto e aspiro uma lufada de ar bom. Embaixo, na rua, passa uma sege puxada por dois cavalos negros que brilham e rebrilham sob a luz do sol. Eu, que sonho, vejo admirado; eu, que sou sonhado, olho com naturalidade. Lembro que somos duas pessoas dentro do mesmo indivíduo; é a regra que governará este ato de sonhar. Ambos nós sabemos que estamos no Rio, na corte de Pedro, o segundo. Sabemos também, agora só eu e o leitor, que o sonhador se espanta ao ver o carro pela surpresa do fato, por não ser ele de sua época, enquanto que para a pessoa sonhada é tudo muito comum. Um e outro são de mundos diferentes, mas só o sonhador o sabe. O sonhado, a bem dizer, é personagem criada e, como tal, não tem consciência da existência do criador. Parece complicado, não? Qualquer dia escrevo um ensaio sobre isto.

            Vejo-me a me vestir com especial atenção e com estranheza; cada peça que pego é uma nova surpresa; escolho a melhor gravata e espano o pó dos sapatos, ponho uma flor na lapela e o relógio no bolso do colete; o chapéu, sem dúvida, será o preto. Poderia pular esta descrição, mas ela se justifica, pois vou tratar com o próprio ministro e preciso estar bem posto. Antes, porém, darei uma passada no tabelião para cuidar de uns registros. Tenho alguns assuntos a resolver antes de voltar à Europa e logo termina a licença. Ah, quase ia esquecendo, levo comigo a bengala, acessório obrigatório do século, e o monóculo, para enxergar melhor.

            Andando nas ruas do velho Rio! Que privilégio! A cidade é feita de construções baixas, pois ainda não fora inventado o arranha-céu. Chega a lembrar Paris, só que bem mais suja. Afora a escravaria e as carroças puxadas a burro, as pessoas são quase elegantes; excesso de roupas, é verdade, e o calor dos trópicos. Lojas pequenas, uma barbearia, uma padaria, uma botica, e casas; gentes nas portas e nas calçadas. Imagino-me vivendo neste cenário, todo abotoado, de casaco e colete; morreria de calor. Sigo andando, deslumbrado, enquanto o conselheiro, dono do corpo que coabito, vai distraído.

            Braga, o tabelião, sempre eficiente, tem quase tudo resolvido, uma só coisa pende de um despacho judicial. Assino os papéis devidos, fumamos um charuto, lembramos coisas dos tempos de faculdade e vamos almoçar no largo da Carioca. Ao nos despedirmos recomendo-me à sua esposa, dona Ana, bem mais nova do que ele e mais bonita. Lembro-me do dia do casamento, tão fresca e apetitosa. Outro casamento que me acode é do Machadinho com Carolina, já lá vão mais de quinze anos, foi em 1869, apenas três meses depois da morte do Faustino. Tinha vindo ela de Portugal para cuidar do irmão, e bem cuidou, aliviando o padecimento dos últimos tempos. Era tudo o que podia fazer, a doença era incurável. Sozinha no mundo, Machadinho consultou-me: o que fazer? Case logo, aconselhei, não será ofensa ao defunto, a irmã precisa de proteção e ele sempre soube da afeição que os une.

            Machadinho era amigo de Faustino, mas, vejam só, coube a mim juntá-lo a Carolina. O homem relutava, tímido que era com mulheres, dizia ser um eremita de trinta anos, velho para casar. Não resistiu, contudo, à meiguice de Carolina e, sobretudo, à cultura da mulher. Foi ela que apresentou a ele os clássicos ingleses e, de sobra, outros tantos de Portugal. Machadinho se encantou e trocou a solidão por um casamento feliz. Agradece-me até hoje por isso. Se der tempo, depois do ministro procuro o Machadinho. Eu, sonhador, alvoroço-me com a ideia, encontrar o grande Machado; o outro eu, o sonhado, nem chega a perceber que nosso coração acelera.

            Ido o Braga, consulto o relógio. Ainda é cedo para o ministro; vou até o Garnier. Na rua do Ouvidor encontro o velho, sempre sentado no fundo da loja, onde recebe fregueses e escritores, os que já o são ou os que virão a sê-lo. Quando ele me vê dispensa um jovem vestido como um dândi, de bigodes espetados e cabelos penteados a óleo.

            Bonsoir, mon ami! Há que tempos!

            Aprecio o cumprimento caloroso e retribuo com um aperto de mão demorado.

            — Sabes quem é o menino que acaba de sair? O Bilac, um poeta que promete.

            Soubesse antes, teria observado melhor. Bilac, um moço ainda sem tempo de ouvir estrelas! Mas seu tempo chegará. Este pensamento me faz sorrir e, por um segundo, chego a esquecer do livreiro, que perguntava da França, da sua França, do cais do Sena, da construção da nova igreja do Sacre Coeur, em Montmartre, dos cafés, do vaivém da política; tem saudade da pátria; de lá saiu há tantos anos! Seus olhos marejam. Digo o que sei, mas é pouco, não trago novidade, ele sabe tudo, lê habitualmente os jornais que lhe chegam de lá. Só não lhe digo que não é mais tão francês como pensa, que agora já é um brasileiro de alto coturno, aclimatado nestes tristes trópicos e que acabará, junto da elite da terra, enterrado no São João Batista. Conhecimento de futuro que tenho e que não vale revelar. Deixo a França de lado, falo de Machadinho, do último livro que publicou.

            — Ah, o Brás Cubas? Que livro! Um sucesso, mon ami, um sucesso! O homem se reinventou. Daqui para frente a literatura deste país não será mais a mesma.

            — O que, afinal, deu nele? Era tão comportado, e agora solta esse petardo!

            — Era um gênio enjaulado. Agora verás aonde chega esse menino.

            Garnier e seu hábito de chamar a todos de menino! Não deixa, de certa forma, de ser um pai; com sua cultura e fino gosto dá conselhos a quem se inicia nos degraus da literatura. Conversamos uma boa meia hora; olho o relógio, desculpo-me e vou ao ministro.

            A entrevista não foi fácil, tive que ser duro; o ministro é um bom representante do atual gabinete, que mete os pés pelas mãos. Tanta presunção e pouca eficiência; não demora cairá. Despeço-me dele com um falso tratamento de excelência, noblesse oblige, e desço um lance de escada. Se a memória não falha é neste pavimento que Machadinho trabalha. Lá está ele no fundo da sala, pondo uma cota em um processo. Que perda de tempo! Poderia estar escrevendo um capítulo de um novo livro. Perde ele e perde o país. Que fazer, precisa garantir o sustento. Todos precisamos.

            Chego diante da mesa e ele sente a presença; levanta a cabeça, olha e, surpreso, deixa cair os óculos, que ficam balançando no cordão.

            — Conselheiro! exclama.

            — Machadinho! respondo com o mesmo calor.

            — Seja bem-vindo! Não sabia que o amigo estava no país.

            — Cheguei há pouco, vou-me logo; só vim resolver alguns negócios.

            — Se puder ser útil, fico à disposição.

            — Agradeço. Gentil, como sempre.

            — Senta, Conselheiro. Dá-me um minuto para fechar gavetas e logo saímos.

            — Não quero atrapalhar.

            — Por Júpiter, é uma alegria andar consigo.

            Com movimentos mecânicos Machadinho põe os processos em três gavetas da secretária, cada um em seu lugar, tranca-as e guarda as chaves no bolso interno da casaca. O ato é simples, mas executado com tal segurança que confirma o que o homem é: metódico. É na vida como o é na escrita, não podia ser diferente.

            Já na rua lembro de perguntar se ele tem algum compromisso; não o tendo, sugiro tomarmos um sorvete no Passeio Público. A tarde está quente.

            — Estamos no Rio, diz Machadinho rindo.

            — É verdade, estamos no Rio, concordo com emoção. Lembranças, meu amigo, lembranças! Estive ainda há pouco com o Garnier; ele elogiou muito seu livro, disse ser um sucesso. Aceite também meu cumprimento, concordo inteiramente com o velho livreiro, ele sabe o que diz.

            — Sou duplamente grato; são olhos de bons amigos, agradece ele, e tenta fazer uma cara de modéstia, mas não consegue disfarçar o prazer que lhe alcança. Deve mesmo ter muito orgulho do que é. De mulatinho do morro do Livramento, órfão precoce, ao maior autor brasileiro, é mesmo para se orgulhar. Ainda menino aprendeu latim com um padre e francês com um padeiro imigrante; antes de morrer estudará grego para ler Homero no original. Não sabe o futuro, a estrela maior que será em cem anos, um clássico eterno. Não o sabe também o Conselheiro sonhado, que lhe transmite o preito de admiração, mas sei-o eu, este sonhador do futuro. Fico por um instante travado diante deste homem, tão franzino de corpo e, no entanto, um monumento. Com esforço, quebro a paralisia:

            — E dona Carolina, como está?

            — Minha doce Carola está muito bem, obrigado. Ela gosta muito do Conselheiro; sempre me faz lembrar quem foi a pessoa que nos uniu. E quanto agradeço por isso! Ela organizou minha vida. Sem ela não faria metade do que faço; passa a limpo meus garranchos, que nem eu mesmo entendo, numera páginas, divide os capítulos; alguns até chega a completar. Não raro, modifica-os. Uma tarde, ao chegar a casa, disse-me ela:

            — Machadinho, vi que tratas muito mal a moça desta história; modifiquei um pouco teu escrito; depois vê se ficou bem.

            — E ficou melhor? Diga-me.

            — Creio que sim; não fui ver. Confio nela.

            — Transmita-lhe meus cumprimentos.

            — Melhor, Conselheiro, faça-o pessoalmente; venha conosco jantar amanhã.

            — Será uma alegria; moram ainda no Catete?

            — Agora estamos de casa nova, rua Cosme Velho, 18. Por isso arranjaram-me uma nova alcunha, o bruxo do Cosme Velho.

            — Por que bruxo?

            — Creio que por viver recluso e por ter sido visto a queimar papéis em um caldeirão em alguma noite escura.

            — Não lhe fica mal, afinal você está sempre a criar personagens...

            — A Cesar o que é de Cesar...

            — Tem dado vida a mulheres divinas. Por que, quando as descreve, desenha sempre os olhos e raramente outras feições?

            — Agora que dizes vejo que é verdade; uma vez ou outra há uns braços ou a ponta de uma chinela de alcova, mas os olhos estão sempre lá. É defeito meu. Talvez porque os olhos revelem tudo; colocar mais coisas não seria estilo derramado?

            — Sei que você não para de escrever; o que tem feito atualmente?

            — Alguma crônica de jornal, um e outro conto para revistas... Machadinho se interrompe, titubeia, e faz a revelação: estou pensando em iniciar um novo romance, um que trate da loucura, talvez até use o Quincas Borba, um personagem do Brás Cubas.

            A esta altura do encontro já havíamos atravessado a área do Passeio Público e estamos agora no terraço a beira mar. O mar está crespo e as ondas quebram na base do terraço levantando véus de gotículas, onde o sol de fim de tarde aproveita e pinta cores de arco-íris.

            — É um bom tema, digo eu. Se o amigo me permite sugiro outro para depois, para um segundo livro.

            — Por favor, Conselheiro, fico devendo mais isto.

            — Faça um livro sobre o ciúme. Existe algum outro mal que tanto machuca o coração humano?

            Machadinho não responde logo; mira o mar e as ondas fortes. Coça a cabeça e diz:

            — É uma boa ideia, Conselheiro, trabalharei nisso.

            — Será o Otelo brasileiro, exclamo incentivando; oportunidade para criar mais uma mulher maravilhosa. Como será sua Desdêmona?

            — Com certeza terá um nome mais bonito, graceja ele.

            — E os olhos dela, Machadinho, como serão os olhos dela?

            Ele volta a olhar o mar e parece que além das ondas começa a vislumbrar o futuro. Demora na contemplação; acompanha o vaivém das vagas e parece prever nelas o afogamento de Escobar. Não demonstra pena; desde agora Escobar não é, e nunca será, uma pessoa que o agrade. Com Capitu é diferente, ele pincela os primeiros traços, mistura nos olhos dela as ondas revoltas, um presente de namorado. Ela ainda nem nasceu e ele já está apaixonado. A primeira semente acaba de ser plantada, e ele divaga:

            — Os olhos dela. Terão alguma coisa de mar, conta vagarosamente, alguma coisa de mar...

            O sol acabara de se pôr e as nuvens de gotículas já não refletem mais as cores do arco-íris. O esplendor do dia ensaia sua retirada enviando como despedida uma leve brisa que arrefece o calor. Retiro do bolso do colete o relógio e constato que é hora de recolher.

            — Tomemos um carro, Machadinho; levo-o até sua casa, assim aprendo o caminho.

            Chegamos à casa, um bonito sobrado com jardim bem cuidado, seguramente mãos de Carolina.

            — Vemo-nos amanhã, digo eu, e mando o cocheiro partir. Quando ele estala o chicote, acordo.

            As pessoas desta história são reais de um modo ou outro; existo eu neste século vinte e um, existiram elas na segunda metade do dezenove, um, o gênio que sempre foi, e que mais ainda viria a ser, e o Conselheiro, personagem de seus dois últimos livros. Se os sonhos forem, de alguma forma, mensagens de uma realidade transcendente, terei sido eu, viajante do tempo, quem sugeriu a Machado a feitura de Dom Casmurro. Envaidecido fico, e desconfiado que talvez tenha mesmo existido no mundo real o Conselheiro e, neste caso, poderá ter sido meu trisavô, do qual terei herdado o sobrenome ilustre, que ainda conserva o ípsilon original: Ayres.

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