Marcos abre
a porta da varanda e descortina a paisagem onde a neve resplandece a luz do
sol, mas, avara, guarda para si a energia amarela e reflete apenas brancura. Os
olhos não se dão conta desse curioso processo de fotossíntese, absorto que estão
na contemplação do abismo que se aprofunda a um palmo da amurada de vidro.
Aquele vazio exerce sobre o homem uma atração hipnótica. Elemento principal da
cena, o solo tem contornos esmaecidos pela reverberação de luz e, picotado de
pistas de esqui, eleva-se em montanhas ainda antes de atingir o horizonte.
Alguns vultos, vestidos de vermelho ou amarelo, deslizam manso pelas colinas
macias. Marcos, contudo, não os vê, não enxerga a paisagem, não enxerga as
montanhas, continua hipnotizado pelo precipício que tem a seus pés.
— Marcos,
querido, me ajuda a desfazer as malas!
*
O hotel
fora construído no cimo de um rochedo alcantilado e, de propósito, à beira do
despenhadeiro para melhor oferecer a seus hóspedes o desfrute da paisagem.
Instalados
em seu apartamento, Marcos e a mulher se compõem para o jantar e descem ao
refeitório ocupando uma pequena mesa, adrede reservada ao lado de ampla
vidraça. No centro da mesa um castiçal de prata segura três velas delgadas, que
o maître vem acender assim que o
casal toma assento.
O
tremeluzir dos círios lança uma claridade cambiante sobre o rosto da mulher e,
naquele vai-e-vem de meio claro, meio escuro, revela um resto de beleza que a
broca dos anos não conseguira dilapidar. Marcos olha para a mulher como não
olhava desde tempos e bendiz aos céus a sorte de tê-la em sua vida. Mas, como a
maioria dos homens, guarda para si a observação, não atina com a alegria que
teria proporcionado se a tivesse tornado explícita.
Além da
vidraça, na paisagem noturna, uma meia-lua leitosa disputa com as estrelas o
privilégio de quase alumiar as poucas pistas, espremidas entre as colinas. Sua
tênue claridade, porém, coada entre tufos de nuvens, consegue somente o efeito
de um cinzento claro. Tivessem os astros um olhar de marchand experiente talvez concluíssem ser o efeito alcançado ainda
mais belo que o branco refulgente do meio dia.
Por sorte o
refeitório está situado em lado oposto do despenhadeiro que há pouco assombrara
Marcos. Esta simples diferença geográfica, de cinco ou seis dezenas de metros,
permite que ele desfrute do momento, da beleza quase esquecida da mulher,
relembrada pelo bruxuleio das velas, do quadro plácido que a Natureza, quem
sabe inspirada em Monet, pintou na tela translúcida da vidraça, da delícia da fondue ebuliente de queijos nobres, e do
vigoroso vinho que tinge de tons rubros as taças de cristal.
É a noite
perfeita!
Nós,
discretos que somos, vamos apenas adiantar que ela terminará na intimidade macia
de lençóis de algodão egípcio.
*
Alta noite,
lua perto do zênite, Marcos se levanta da cama e, andar trôpego, caminha até a
varanda. Tem os olhos afogueados e fixos no abismo, não consegue desviá-los. O
vazio sombrio o atrai como a uma presa o olhar da serpente; na testa
porejam-lhe gotas de um suor frio; seu corpo, coberto só pelo pijama, não sente
a temperatura das lufadas de ar gelado que lhe batem no peito quase desnudo; as
mãos tremem, não de frio, e sim como reflexo do alvoroço que lhe toma a alma. O
coração dispara.
Marcos
vence o medo e se debruça sobre o parapeito: agora vê de frente, vê quase de
dentro a pretura do precipício. Lança-lhe um olhar demente e desafiador, que se
perde no limbo da escuridão. Um silêncio duro sobe das profundezas, transpassa
os tímpanos e lhe martela a alma:
— Vem! Vem!
Tresloucado,
Marcos levanta a perna para pular a amurada... e acorda no leito, molhado de
suor.
*
Depois da
noite mal dormida, as atividades do dia não conseguem fazê-lo esquecer a
angustia do pesadelo. Ele, psiquiatra experiente, conhece bem o pequeno espaço
que separa a saúde da loucura e como é fácil escorregar de uma para outra. Traz
o cenho carregado. Avalia o perigo. Preocupa-se. Possui uma mente cartesiana,
lógica, realista, mas sabe, melhor que ninguém, que mente alguma consegue
anular impulsos profundos. Tem visto compulsões estranhas superar o bom senso.
Divaga. Imagina que volta à varanda e pula o parapeito. Antevê o choque de
Alice, seu estupor, pressente os comentários no velório: - Quem diria, tão
centrado! Conhecedor da alma humana, adivinha que Tião, aquele mau-caráter
enrustido, aproveitará a oportunidade: - Ele nunca me enganou; sempre senti que
tinha alguma coisa errada atrás daquela pose de autossuficiência! Em outra
rodinha, cinco pares de profissão a discutir o desastre: - Ele demonstrava
alguns indícios...
— Hipócritas!
*
Marcos
passa o dia todo fora do hotel e, quando volta, na boca da noite, entra
depressa no quarto e nem olha para a varanda. Corre ao banheiro e, contrariando
o hábito, toma banho antes da mulher. Depois diz a ela que a esperará no bar,
vai tomar um aperitivo antes do jantar. Diante do olhar surpreso da mulher
disfarça a pressa e sai do apartamento. Covarde, pensa consigo, será que não
consigo enfrentar a varanda?
Após o
jantar inventa um jogo de cartas com outro casal de hóspedes, ele, que sempre
odiou cartas. É o meio que encontrou de retardar o retorno ao quarto. Alice,
que o conhece bem, estranha e, por não ter botões na roupa para confabular –
injustiça dos costumes – confidencia a si mesma: - Ele não está bem!
Sobem tarde
ao quarto. Lua outra vez alta no céu e Marcos, também alto, como é comum
descrever quem bebeu mais que o certo. Fizera algumas canastras e festejara cada
uma delas com libações; perdera outras e afogara a mágoa em novas rubras taças.
No geral perdera na soma, mas não na compostura: ao final reverenciou o casal
vencedor.
Ao entrar
no aposento ele acende a luz e não consegue evitar – bebeu demais – que os
olhos procurem a varanda, antes de qualquer outra coisa. Com passos alcoólicos
atravessa o quarto, tropeça no pé da cama, desliza a porta de correr, escorrega
na neve e cai sentado, frente ao anteparo de vidro. Olha destemido para o vazio
atrás da lâmina e, pela primeira vez diante do abismo, tenta esboçar um sorriso
de desafio. A intenção é uma, o resultado é outro: apenas um esgar.
Surpreende-se de não sentir medo e compreende que o vidro age como um escudo,
como uma janela de avião. Com alguma dificuldade se levanta e se agarra na
borda do parapeito. Agora olha o precipício sem anteparo. Não tem mais escudo.
Não tem mais proteção. O abismo está ali, livre. Sente outra vez um gelo na
espinha. Aquele nada o atrai, convida. Faz força para fechar os olhos, mas não
consegue, estão paralisados.
— Querido,
entre logo, vai acabar pegando um resfriado!
*
Médico que
é, sabe que não deve misturar ansiolítico com álcool, mas as mãos trêmulas lhe
convencem do contrário: toma logo duas doses, quer garantir um efeito seguro.
Quer dormir sem sonhos.
*
Noite alta,
Marcos se levanta da cama e, cambaleante, alcança a varanda. A Lua descamba no
céu e a noite é fria. O vento gelado açoita-lhe o peito desnudo e faz com que a
testa poreje um suor de febre malsã. Os olhos, esgazeados, parecem mergulhar no
poço sem fundo. O vazio o atrai. O Diabo, nas profundas, insiste em chama-lo: -
Vem! Ele tenta resistir, mas a perna, desobediente, ergue-se acima da
amurada...
Um resto de
sanidade acorda-lhe no cérebro algum lóbulo cartesiano: - É sonho! É um
pesadelo! Logo vais acordar!
*
— Mas por
que não acordo?
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